quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Capitão ou demônio ou pássaro azul

   Como escritora, eu amo a teoria da literatura. Foi com muita frequência que produzi e repensei textos durante as aulas de teoria (sou aluna de letras na UFPR), e "O capitão e o corvo" é um exemplo disso.
   O segundo semestre havia começado, a primeira matéria de segunda-feira era teoria da literatura 2, que consistia na análise do texto poético, seus elementos constituintes, linguagem e estrutura. Eu havia fumado haxixe com a Lua, minha melhor amiga, com quem eu tinha combinado de fumar hash nas férias, mas nossos horários não batiam, obrigando-nos a deixar para fumar antes das aulas durante toda a primeira semana do semestre.
   Fazia coisa de um mês que um grande amor tinha ido embora da cidade, a mesma pessoa para quem escrevi os poemas I, II, III e IV, e depois outros poemas que decidi não enumerar porque cinco é o meu número favorito e até agora, ainda não me senti disposta a escrever um poema entitulado V por três motivos: a nenhum dos poemas posteriores ao IV faltou título, a pessoa a quem dediquei os poemas posteriores aprendeu a reconhecer-se nos demais poemas e não quero aceitar que acabou (porque às vezes tenho a sensação de que me reconheço nos textos poéticos e não poéticos dele), e o que não acabou não merece a chave de ouro que seria um cinco.
   O "capitão", no caso, é advindo do poema I, que surgiu em uma crise de preguiça de viver e de sair de casa da parte dele enquanto eu ficava sentada com amigos no pátio da reitoria da UFPR, com os olhos fixos na rua que ele tomava para vir para a universidade, na esperança de que ele fosse aparecer. Quando escrevi o poema I, preocupei-me em estabelecer comunicação com o poema "O captain! My captain!", de Walt Whitman, poema preferido do universitário preguiçoso em questão (vamos chamá-lo, por convenção, de capitão).
   De volta à primeira aula de teoria da literatura do semestre, o professor explicava sobre o gênero poético, lembro de prestar muita atenção à justificativa da escolha da frase "a literatura é uma grande muralha de silêncio neste mundo cheio de ruídos", de Roland Barthes. A literatura tem a capacidade de ocultar, e é isso o que faço com ela desde que me tenho por escritora, aquilo que cotidianamente seria compreendido (berrado) com facilidade. O professor caracterizou a poesia como o miolo subjetivo, que nunca diz uma coisa extrema nem outra e sim sugere uma conciliação entre ambas, explicando o fato de que cada vez a poesia tem menos espaço no mundo porque ela incomoda. Em um lugar onde tudo é dividido entre certo e errado, bem e mal, direita e esquerda, a poesia, que não é nem um nem outro, acaba extrapolando o socialmente ou moralmente aceitável.
   Na hora, me subiu à cabeça a música The Fence, de Tim Minchin, à qual fui apresentada pelo capitão algum tempo depois de voltar à sua cidade. Ele me mostrou a música porque, entre as anormalidades inerentes a mim, a descrença nas dicotomias sempre foi notável e chegamos a conversar sobre o assunto algumas vezes. A referência clara à música está em "Entre o revolucionário e o homofóbico / A poesia incomoda os dogmas".
   O momento em que decidi que iria escrever um poema foi quando o professor apresentou Vladimir Maiakovski e Walt Whitman como dois poetas da revolução: este da revolução americana e aquele da russa. Achei que seria engraçado tomá-los como uma dicotomia, um americano e um russo pareciam inconciliáveis, e, como concluí anteriormente, a poesia é o recheio dos extremos.
   Não bastasse Walt Whitman, poeta idolatrado pelo capitão aparecer como um extremo, lembrei-me do meu poema "IV". No verso "E também, não coloca mais aquela música", refiro-me à musica Animate, do Rush, primeira faixa do álbum Counterparts. Sempre tomei os opostos de tudo como contrapartes, complementos, talvez como é dito pelas pessoas que "os opostos se atraem". Na primeira vez que ouvi essa música, eu estava com ele na casa de um amigo de amigos. Ele colocou o vinil do Counterparts e me chamou pra dançar. Perguntei o nome da música bem depois e acabei me identificando com partes da letra. Há também a contraparte do cinco de ouros, minha carta da sorte no baralho, e o cinco de paus, carta oposta. Acabei relacionando o cinco de paus à presença dele. A última contraparte no poema IV é a entre o elemento fogo e o elemento ar, opostos complementares de acordo com o ocultismo e a astrologia. Escrevi sobre os elementos porque sou de sagitário, signo de fogo, e ele de aquário, signo de ar.
   Se eu resolvesse gostar de Maiakovski tanto quanto o capitão gosta de Walt Whitman, teríamos uma nova oposição para tornar piada. Outro elemento presente tanto em "IV" quanto em "O capitão e o corvo" é a sugestão da cor azul. Em "IV", está nas referências musicais: na comunicação com a música Innocent Blue, abertura da série de animação japonesa School Days, e na capa do Counterparts que postei para ilustrar o poema. Em "O capitão e o corvo", está em "já não indago essa dor índigo" e em "Seria melhor apagar o anil" (que tornam o azul sinônimo de dor, sutilmente assemelhando-se ao "Essa é a dor de um azul inocente que se acumula como a neve" da letra de Innocent Blue), e nas evocações a Bluebird (que foi escrito pelo capitão): uma no verso que também conversa com "O Corvo", de Edgar Allan Poe "Capitão ou demônio ou pássaro azul", e a outra na imagem da guitarra azul (eu queria uma imagem de guitarra azul com pequenas manchas de sangue, mas não encontrei) que postei com o poema. O pássaro azul também pode referir-se ao simpático Larry do twitter, rede social onde muitos dos nossos gritos se escondem em silêncios subjetivos.
   Gosto muito de Bluebird. Deixando de lado meu envolvimento com o capitão, Bluebird me traz a tona o sentimento que tenho pelo meu primeiro caderno de poemas (antes de criar o blog, eu escrevia meus poemas em cadernos, tenho cinco cadernos no total). Azul é a minha cor favorita, então, quando comprei o meu primeiro caderno, comprei um caderno simples de capa dura azul. Esse caderno sobreviveu à morte não de um filho, mas de um melhor amigo (e de uma paixão), e foi na penúltima página (nunca escrevi nada na última página porque gosto da sensação de que sempre caberá mais um poema) dele que escrevi a sangue o meu primeiro bilhete de suicídio.
   Quanto à comunicação com "O Corvo", de Edgar Allan Poe, a primeira referência tem o objetivo de deixar ao destino ou ao acaso ("E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.", como citei Tabacaria, de Fernando Pessoa, anteriormente em "Meia carteira de Lucky Strike") uma possibilidade remota de reencontro, e também se refere a um diálogo real nosso, em que expliquei a ele uma teoria de abstração de tempo e espaço.
   Tentei também dar certa continuidade à simbologia que têm os umbrais no poema de Poe: sempre há a sugestão de incerteza entre uma coisa e outra que, segundo Poe em "A filosofia da composição", traz a aura do fantástico ao poema. Minha intenção foi de sugerir a dúvida e aliá-la ao conceito anterior de que a poesia seja um miolo subjetivo entre os extremos. Também tento sugerir uma incerteza minha quanto ao capitão ainda gostar ou não de mim ou sentir ou não a minha falta, e isso está tão subjetivo no discurso dele quanto no meu poema.
   Quando, há algum tempo, surgiu a indecisão dele quanto a ir embora ou continuar na cidade, lembro-me de ter dito a ele que fosse embora. Não por não o querer por perto, e sim porque ele não parecia feliz aqui. E ele ainda parece. Capitão ou demônio ou pássaro azul, se precisar de alguma coisa, de uma conversa, de uma palavra amiga, saiba que estarei aqui e farei o que puder para que tudo a ti seja pleno.



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