Se não for a melhor, a Bruna é uma das melhores desenhistas que eu conheço. Gabaritou a prova de desenho no vestibular para arquitetura. Coincidiu de que quando aquela pessoa nova veio puxar assunto comigo perguntando "Você desenha?", eu estava desenhando uma personagem de Elfen Lied, minha série de animação japonesa preferida, e a Bruna, apesar das minhas péssimas habilidades, a reconheceu. Ela me ensinou mais da metade do pouco que sei sobre desenho, e sempre que desenhávamos juntas, me apontava os meus erros. Lembro carinhosamente desses episódios nos versos "A te ouvir reclamar de cada traço torto que traço | Na vida", na quarta estrofe do poema "Joga a casquinha mista no lixo".
Demorou pouco (tenho vênus em aquário) para que eu me apaixonasse pela minha melhor amiga e demorou muito (ela tem vênus em capricórnio) para que eu fosse correspondida. E quando eu percebi que era correspondida, foi porque ela teve ciúme de um garoto novo que tinha entrado na turma de quem eu também estava gostando (e que também gostava de mim).
Sou uma pessoa magoada e inconstante. A maior fraqueza que me deixaram no coração o abandono e uma overdose é o medo de perder aquilo que amo. Eu nunca conseguiria, nem nunca consegui, deixar de amar alguém, e tudo o que eu não queria ter que fazer era escolher um dos dois. O início da minha inconstância em meu relacionamento - e da inconstância de que tanto falo no poema - foi aí, e o fim - que não por acaso coincide com o fim dele - foi quando a universidade abriu um leque de possibilidades que eu jamais poderia provar.
Nas duas vezes em que terminamos, a Bruna conversou pacientemente comigo e citou a frase que digo toda vez que vou comprar uma casquinha italiana: "Gosto de casquinha mista porque eu não tenho que escolher entre baunilha e chocolate". "Você é indecisa, Lúcia. Precisa saber o que quer", ela diz até hoje. Quando escrevo sobre gostar de casquinha mista, reifro-me a duas situações: por ser bissexual, não tenho um gênero de preferência; e por amar duas ou mais pessoas, nunca conseguiria escolher apenas uma.
E por este motivo, assumo o poema referido como uma espécie de utopia, pois me liberto desse símbolo da minha indecisão na terceira estrofe em "Jogo fora a casquinha mista" e no título "Joga a casquinha mista no lixo", coisa que nunca seria capaz de fazer na vida real. Prestando atenção ao título, que por meio do imperativo "Joga" sugere um pedido - não uma ordem, nem uma recomendação, pois nunca em um momento de sensibilidade, decisão e saudade alguém daria alguma ordem nem seria frio para aceitar uma sugestão. Não poderia ser nada menos desesperado que um pedido -, expectando uma aceitação se o destinatário do poema concordasse em jogar a casquinha fora. Já o citado anteriormente verso da terceira estrofe em sua estrutura representa a tomada de uma decisão quanto ao problema anterior a ela. "Jogo fora a casquinha mista" representa a desistência do posicionamento anterior.
Eu e a Bruna gostamos de BDSM. Quando crio, na terceira estrofe, uma casquinha mista e peço sem baunilha, não me refiro ao sabor, e sim ao sexo sem graça. E quando digo que é a sina do sorvete derreter, refiro-me a Boku no Pico, um dos mangás preferidos dela, que é frequentemente lembrado pela cena em que os personagens principais estavam tomando sorvete quando um é seduzido pelo outro, e enquanto os dois se amam, o sorvete derrete.
Na primeira estrofe, quando escrevo "Mas a minha mão é seca | E a tua chega a borrar o desenho", tento estabelecer oposição entre as minhas mãos e as dela, que sempre estavam suadas e acabavam molhando o papel em que ela desenhava; tento dar continuidade a essa oposição harmônica do conforto com que ela cura minha euforia na terceira estrofe em "E vejo que sua mão quente | Se deitaria confortável sobre a minha fria" - aliás, a frieza só poderia estar na minha mão, uma vez que mãos quentes representam afeto e eu segurava uma casquinha - e na quarta estrofe reforço a paz trazida comparando-a a coisas doces e nostálgicas como "leite morno", "bolo no forno" e begônia.
A música da qual coloquei o link após o poema nos foi apresentada pelo professor de Língua Portuguesa, e naquela aula ele explicou que somando o título à letra da música, apesar de todos os verbos indicarem uma história de amor que acabou, o tempo presente no título "Eu te amo" indica que a saudade e o amor ainda existem.
A música, como disse na minha nota no rodapé do poema, fala de como as duas pessoas deixaram a vida de lado para viver uma paixão e no fim estavam tão acostumadas uma à outra, física e emocionalmente que não romperam quando era o tempo e agora não querem aceitar que a relação acabou. Eu e a Bruna sentimos isso uma pela outra. Ainda somos melhores amigas. Não consigo imaginar uma vida totalmente independente dela. Tento dar continuidade a essa ideia na quarta estrofe, comparando nós com algo tão familiar quanto um lar e citando o costume do encaixe de uma mão à outra.
Mais do que uma utopia, esse poema representa um agradecimento. Voltando ao meu medo de perder o que amo, acabo o poema com uma estrofe que retoma tudo o que acabou e perdi, e eu sei que tudo o que amei, deixei ir ou foi embora. Menos Ela.
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